As Sardinhas mudaram de casa

Um pouco por todo o país, Santo António, São João e São Pedro assistem aos bailaricos e aos desfiles das marchas populares em ruas decoradas com “arquinhos e balões”.

Nas praças e pracetas, largos ou terreiros, são montados assadores e barraquinhas onde a gastronomia tradicional ganha vida.

A Sardinha transforma-se em rainha e espalha o seu perfume, saltando da grelha para uma saborosa fatia de pão, onde pinga e liberta todos os seus sabores.

A Bifana, mais modesta, mas não menos saborosa, é acomodada entre as duas metades de uma carcaça, depois de um demorado banho num mar de banha e alho.

Por fim, o Vinho. O néctar dos deuses cumpre a sua tarefa de desembuchar e aprimorar os sabores de tão nobre repasto, renovando, a cada trago, a vontade de mais uma Sardinha, de mais um Bifana e de… mais um copo de Vinho, relembrando o “círculo delicioso”, superiormente descrito por Miguel Sousa Tavares, na sua crónica de 1985, “Almoço”.

Mas os Santos não são só comes e bebes. São, essencialmente tradição. São hábitos bem portugueses que, ano após ano, relembram os costumes e reforçam a identidade de um povo na sua diversidade regional.

Nas várias cidades, vilas ou aldeias, os santos são festejados com diferentes especificidades, que vão desde o manjerico ao alho-porro, passando pelas largadas de balões ou da bênção dos barcos de pesca.

Em Cascais, no dia do seu padroeiro, realiza-se a procissão de Santo António, que percorre as principais artérias da vila. Paralelamente, realizam-se um sem número de arraiais, promovidos pelas várias coletividades e associações do concelho, sendo possível encontrar sempre uma festa ao longo dos meses de Junho e Julho.

Também na Quinta da Carreira, São João do Estoril, tivemos festas. O Arraial dos Escuteiros, com a colaboração da Ass. de Moradores, e o Arraial da Paróquia, que este ano voltou ao seu local original, saindo à rua e enchendo o Largo da Igreja.

Mas a grande novidade, ficou guardada para o mês de Julho, com a mudança de local da tradicional Sardinhada da Junta de Freguesia de Cascais e Estoril que, este ano, se realizou na Praça da Carreira, em São João do Estoril.

Recuperou-se assim, a antiga tradição de comemorar os santos populares neste local, onde outrora, os comerciantes da praça promoviam as sardinhadas, das quais guardo fantásticas memórias.

Quem se recorda do Sr. Pinheiro, da Electropinheiro, do Sr. Carvalho, do Mini-café, do Sr. Campinas, da Farmácia, do Sr. Vinhas da Joalharia e, naturalmente, do Sr. Bolota, que ainda hoje mantém aberta a papelaria Bonanza?

Não saltamos a fogueira como noutros tempos, mas voltamos a ter sardinhas na praceta.

Está de parabéns a Junta de Freguesia e o seu Presidente, Francisco Kreye, por esta iniciativa descentralizadora.

A tradição regressou a casa.

In Jornal Notícias de Cascais

*Foto de Luís Bento



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